quarta-feira, 4 de julho de 2018

A ENCALHADA


PERSONAGENS:
CORRINHO (Mãe)

SEBASTIÃO (Pai)
JANICE (Filha)
PAUMIRA (Amiga)

PEÇA EM UM ATO
JANICE:
- Meu Santo Antônio, vou te deixar assim de cabeça para baixo, até o senhor me arrumar um marido. Onde já se viu, já estou na idade de casar e até agora nada!

CORRINHO:
- Ocê que se aquete menina! Já disse que é bem mio ficar sorteira.

JANICE:
- Mainha... Per todos os santos do mundo. Num diga uma derrota dessa não. Vá que Santo Antônio escuta uma coisa dessa. Ai é que num caso mermo! No caritó num fico. De jeito maneira.

CORRINHO:
- Deixa de fuleragem menina! Te quebro os dentes. Ta achano o que? Que vou permiti pouca vergonha aqui em casa é? Quero morrer tesga se deixar ocê com quarquer um...

JANICE:
- Que vida disgraçada é minha... Nem direito de mim casar eu tenho.


CORRINHO:
-Tu ta é com fogo na bacurinha. Sei be como acabar com isso. Um bom banho de água fria. (Janice sai)
SEBASTIÃO: - Que gritaria é essa, Corrinho? Mai que diacho ta aconteceno aqui? Lá do fundo do quintá dá pra ouvi esse teretetê!

CORRINHO:
- Ô, Tião... É nossa fia, que agora inventou quer casá.

SEBASTIÃO:
- Uai! E isso num era já de se esperá? È bão... Mió assim, pelo meno, ela num pensa como muitas peldidas que tem poraí. Que vive vive correno atrás dos machos.

CORRINHO:
- Oschem, e desde de quando ocê aprova vê sua filha de chamego com desses cabras?

SEBASTIÃO:
- Prefiro ela namorando aqui nesta sala na nossa presença.

CORRINHO:
- Num tô acreditano no que to ouvino...

SEBASTIÃO:
- O sonho de quarquer pai e vê sua fia bem casada.

CORRINHO:
- Vou inté sai daqui porque meus ouvidos não aguentam ouvi mais tantas asneiras. (Sai).

SEBASTIÃO:
- Mai quem ta bateno palma lá fora?

PAUMIRA:
- Bom dia, seu Tião?!

SEBASTIÃO:
- Bom dia, Parmira.

PAUMIRA:
- A Nicinha está?

SEBASTIÃO:
- Tá sim. Vou chamá. Janice! Janice!

JANICE:
- Oi!

SEBASTIÃO:
- Que oi o que cabrita. Sinhô!

JANICE:
- Tá bom pai. Discupa.

SEBASTIÃO:
- Num ta esqueceno nada?

JANICE:
- Benção. (Ele sai) Que cara é essa? Inté parece que comeu e num gostou.

PAUMIRA:
- Que cara é essa? Inté parece que comeu e num gostou.

JANICE:
- Tô quereno casá, mas mainha num quer que nem se toque no assunto.

PAUMIRA:
- E teu pai?

JANICE:
- Painho, é a favor...

PAUMIRA:
- Então é meio caminho andado. E ocê tem arguem em vista?

JANICE:
- É ai que ta probrema. Aqui, todo mundo conhece todo mundo... E arrajar um marido é difici.

PAUMIRA:
- Os homis aqui de Cacimba de Dentro ou é casado ou já tem compromissô.

JANICE:
- Mais Santo Antônio tem que me ajudar. Ou me ajuda, ou afogo ele naquele copo. E em último caso, quebro o pescoço dele.



PAUMIRA:
- Vigi santíssima! Ai que num casa mermo.

JANICE:
- Ah, eu caso. Nem que eu tenha que embriagar o padre.

PAUMIRA:
- Que desespero! Sorte sua... Hoje tem festa. A festa do Arraia do Zé Perneta. Vem gente de todas as bandas.

JANICE:
- Ah! Então, tenho que ficar linda. De hoje num passa.

PAUMIRA:
- Mai tua mãe?

JANICE:
- Vou escondida.

PAUMIRA:
- Isso vai dar confusão.

JANICE:
- E se encontrar um pretendente, fujo cum ele.

PAUMIRA:
- Ficou louca?


JANICE:
- Louca é ficá no caritó. Agora vamos.

PAUMIRA:
- Pra onde?

JANICE:
- Pra tua casa. Acha mermo que vou correr o risco de mainha me prender pra num ir a festa. (Olha para Santo Antônio) Olha Santo Antônio, vê se faz sua parte. (Saem)

CORRINHO:
- Oh, minha virgi santíssima, cadê minha fia? Onde se enfiou essa dismiolada?

SEBASTIÃO:
- Que disispero é esse mulé? Inté parece que morreu argúem.

CORRINHO:
- Se num morreu, vai morrê. Tua fia, num vortô pra casa. Passou a noite fora. Sabe que isso quê dizê?

SEBASTIÃO:
- Que se divertiu...

CORRINHO:
- Sei bem qual a diversão de uma moça que passa a noite fora sem os oios atentos dos pais.

SEBASTIÃO:
- Ocê devia confiar mais na tua fia.

CORRINHO:
- Confio, desconfiando. Ta pensano o que? Ninguém me engana, não. To ficano veia, mai num sou cega não, nem tão pouco lesada.

SEBASTIÃO:
- Teu mal é que vê mardade em tudo.

CORRINHO:
- Seio bem que to falando. Essa hora minha fia deve está disgraçada.

JANICE:
- Mainha... Painho...

CORRINHO:
- Onde tu tava até uma hora dessa sua desinfeliz.

JANICE:
- Ai que estresse! Tava na festa.

CORRINHO:
- Ai, num disse...

JANICE:
- E tenho novidades!

SEBASTIÃO:
- Que novidade é essa?


JANICE:
- Eu vô casá.

SEBASTIÃO:
- Mai que boa notícia fia minha!

CORRINHO:
- Casá? E por que um casamento tão avexado?

JANICE:
- Por que to apaixonada.

CORRINHO:
- Tá perdida, né isso?

JANICE:
- Não. Estou encontrada.

CORRINHO:
- Pra se casá com esse cabra que nem seio quem, só se passar por cima de meu cadavé.

SEBASTIÃO:
- deixa a menina em paz! Se ela quer casá, vai casa, e pronto.

JANICE:
- Quer sabê mainha... Num foi ele que buliu comigo não. Fui eu que buli com ele.


CORRINHO:
- Sem vergonha! Num tem um pingo de bril nessa cara.

SEBASTIÃO:
- Que diacho é isso que ocê tâ dizeno?

JANICE:
- Painho, ele e de confiança. É dono de uma pequena fazenda... Dispois que nóis casá vamo pra lá.

CORRINHO:
- Homi de Deus... Faça arguma coisa. Num vê que essa menina virou a cabeça de vez?

JANICE:
- Painho, ele vem aqui hoje conversar com o senhô. O Ademilso é uma boa pessoa.


SEBASTIÃO:
- O jeito que tem é marcar esse casamento logo... (Palmas)

JANICE:
- Deve ser ele.

SEBASTIÃO:
- Então atende. Num deixa o rapaz esperando.

JANICE:
- Paumira?

PAUMIRA:
- Posso falá com oscê?

JANICE:
- Claro...

PAUMIRA:
- Então vamo lá dentro?

CORRINHO:
- Por que esse segredinho?

SEBASTIÃO:
- Aqui não temos cerimônia...

JANICE:
- Pode falá...

PAUMIRA:
- Não sei...

CORRINHO:
- Fala Parmira. O que tanto quer falar com nossa fia...

JANICE:
- Pode falá.

PAUMIRA:
- É sobre o Ademilso.

JANICE:
- Fala.

PAUMIRA:
- Ele num é fazendeiro coisa nenhuma.

CORRINHO:
- Eu sabia.

JANICE:
- Mai vai casá comigo.

PAUMIRA:
- Vai não.

SEBASTIÃO:
- Como não?

JANICE:
- Que tá dizano?

PAUMIRA:
- Que ele já é casado.

CORRINHO:
- Um homi casado!

SEBASTIÃO:
- eu capo esse disgraçado.


JANICE:
- Não painho!

PAUMIRA:
- Num vai adiantá. Já se mandou. E ninguém sabe pra onde.

JANICE:
- Então, num vai me casá?

CORRINHO:
- Não. E ainda vai ficá falada em toda cidade.

JANICE:
- Isso foi agoro! Agoro! Agora estou encalhada de vez! (Sai Chorando)

CORRINHO:
- Eu te disse, num disse... Eu te disse!

F I M

A APOSTA


Personagens:

PIMPOLHO

TRAMPOLIM

POROROCA

PIMPOLHO:
- Que bacana, que legal hoje tô feliz, sou esperto e não vou me dar mal. Sabe por que? É que eu vou pegar o palhaço trampolim. E vocês vão me ajudar. Que tal? Então eu conto até três e vocês chamam por ele. Trampolim! Então vamos lá... Um, dois, três... Trampolim! (Música)


TRAMPOLIM:
- Piririm pim pim, pom pom, requebra, requebra assim que é bom.


PIMPOLHO:
- O h! Por que me chamaram? 


TRAMPOLIM:
- Quer ganhar um dimdim?


PIMPOLHO:
- Mais homem, menino, rapaz... Dimdim é sempre bom. Não é?




TRAMPOLIM:
- É...

PIMPOLHO:
- Quer dinheiro?

TRAMPOLIM:
- Virou Silvo Santos é? Quem quer dinheiro? Eh... Quem quer dinheiro? Oh...

PIMPOLHO:
- Olha.

TRAMPOLIM:
- Que isso?

PIMPOLHO:
- Dinheiro.

TRAMPOLIM:
- Homem, menino, rapaz... Mais que dinheirama é essa?

PIMPOLHO:
- É que eu conheço um jogo bem legal.

TRAMPOLIM:
- Um jogo é?

PIMPOLHO:
- É. E neste jogo quem vencer leva tudo.



TRAMPOLIM:
- Mais rapaz...

PIMPOLHO:
- Vamos então?

TRAMPOLIM:
- Vomitão não pode.

PIMPOLHO:
- Quis dizer. Vamos então jogar.

TRAMPOLIM:
- Futebol?

PIMPOLHO:
- Não.

TRAMPOLIM:
- Vôlei bol?

PIMPOLHO:
- Não.

TRAMPOLIM:
- Basquete?

PIMPOLHO:
- Também não.

TRAMPOLIM:
- Então que diabo de jogo é esse?

PIMPOLHO:
- Jogo do tudo ou nada.

TRAMPOLIM:
- Tudo...

PIMPOLHO:
- Ou nada.

TRAMPOLIM:
- Posso não.

PIMPOLHO:
- Por que?

TRAMPOLIM:
- Por posso não, minha mãe não me deixa não.

PIMPOLHO:
- Pode sim. Tua mãe não manda em mim...

TRAMPOLIM:
- E é?

PIMPOLHO:
- É. E é legal.
TRAMPOLIM:
- E tem jogo legal?

PIMPOLHO:
- Este.

TRAMPOLIM:
- É um jogo entre amigos.

PIMPOLHO:
- Amigos. (Vai a frente) Mais espie só. Estão querendo me engrupir.

TRAMPOLIM:
- Então, vamos apostar?

PIMPOLHO:
- Então vamos...

TRAMPOLIM:
- Dez reais...

PIMPOLHO:
- É muito.

TRAMPOLIM:
- Nove.
PIMPOLHO:
- Bastante.

TRAMPOLIM:
- Oito...

PIMPOLHO:
- Uma fortuna.

TRAMPOLIM:
- Quanto?

PIMPOLHO:
- Um real.

TRAMPOLIM:
- Um real?

PIMPOLHO:
- Tudo ou nada.

TRAMPOLIM:
- Tudo.

PIMPOLHO:
- Então casa. (Põe o dinheiro no chão)

TRAMPOLIM:
- Tá doido!

PIMPOLHO:
- Coloca o dinheiro no chão para casar a aposta.

TRAMPOLIM:
- Ah! 
PIMPOLHO:
- Ih...

TRAMPOLIM:
- Que foi dessa vez?

PIMPOLHO:
- Tô liso.
 
TRAMPOLIM:
- E eu encrencado.

PIMPOLHO:
- Não tenho um tostão.

TRAMPOLIM:
- Eu te empresto.

PIMPOLHO:
- Você é tão generoso. Assim que eu ganhar, te pago.

TRAMPOLIM:
- Pode apostar.

PIMPOLHO:
- E se perder continuo te devendo.

TRAMPOLIM:
- Quem disse que vou perder... Sou o maior sortudo do mundo.

PIMPOLHO:
Então vamos lá.

TRAMPOLIM:
- Vamos...

PIMPOLHO:
- Onde você vai?

TRAMPOLIM:
- Lá.

PIMPOLHO:
- Não.

TRAMPOLIM:
- É aqui.

PIMPOLHO:
- Ah! E como é esse jogo?

TRAMPOLIM:
- É o jogo do nada.

PIMPOLHO:
- Nada.

TRAMPOLIM:
- Mais homem, menino, rapaz... Que jogo medonho é esse que já começa perdendo?

PIMPOLHO:
- Que nada!

TRAMPOLIM:
- Está vendo? Nada de novo.

PIMPOLHO:
- Deixa eu explicar.

TRAMPOLIM:
- Expelica...

PIMPOLHO:
- A gente joga conversando...

TRAMPOLIM:
- É?

PIMPOLHO:
- E.

TRAMPOLIM:
- E nesse conversa vai, conversa vem... Você não pode falar a palavra: nada.

PIMPOLHO:
- Nada?

TRAMPOLIM:
- Perdeu.

PIMPOLHO:
- Ishi! Danou-se. Não estou gostando nada disso.

TRAMPOLIM:
- Me deve um real.

PIMPOLHO:
- Podemos recuperar. Acha mesmo que vou sair no prejuízo.

TRAMPOLIM:
- E o que vai fazer?

PIMPOLHO:
- Vamos pegar o palhaço Pororoca.



TRAMPOLIM:
- O Pororoca?

PIMPOLHO:
- É...

TRAMPOLIM:
- Então vamos chamá-lo.

OS DOIS:
- Pororoca?!

POROROCA:
- Que auê é esse?

PIMPOLHO:
- É que temos uma aposta pra fazer com você.

TRAMPOLIM:
- E aposto que você vai perder.

POROROCA:
- Se vou perder... Então não preciso nem apostar.

PIMPOLHO:
- A aposta vale dez reais...

POROROCA:
- Opa já me animou. E como é esse jogo?



PIMPOLHO:
- É facinho, facinho...

TRAMPOLIM:
- É simples... Você não pode dizer a palavra nada.

POROROCA:
- Ah!

PIMPOLHO:
- Se disser... Perde!

TRAMPOLIM:
- Vou colocar aqui dez reais.

POROROCA:
- Epa!

PIMPOLHO:
- Vamos lá.

TRAMPOLIM:
- Responda rápido. Já está valendo... 

POROROCA:
- Manda.

PIMPOLHO:
- Limão, açúcar e água? Mistura tudo num copo e vira?



POROROCA:
- Não vira, se não entorna.

PIMPOLHO:
- Não!

POROROCA:
- Não?

PIMPOLHO:
- Não.

TRAMPOLIM:
- Limonada...

POROROCA:
- Epa! Perdeu. Falou.

PIMPOLHO:
- O que?

POROROCA:
- O que não devia.

PIMPOLHO:
- Vamos vê se é esperto...

POROROCA:
- Mais dez.

PIMPOLHO:
- Mais dez.

POROROCA:
- Manda vê.

PIMPOLHO:
- Banana, açúcar... Mexe numa panela, vira?

POROROCA:
- Doce.

PIMPOLHO:
- Não.

TRAMPOLIM:
- Bananada.

POROROCA:
- Epa! Perdeu!

TRAMPOLIM:
- Espera ai...

PIMPOLHO:
- Eu disse bananada.

POROROCA:
- Tira a banana, fica o que?

PIMPOLHO:
- Nada.

POROROCA:
- Viu. Perdeu.

PIMPOLHO:
- Então vamos de novo.

POROROCA:
- Tem certeza?

PIMPOLHO:
- Absoluta.

POROROCA:
- Então vamos dobrar a aposta.

PIMPOLHO:
- Cem reais.

POROROCA:
- Melhorou.

PIMPOLHO:
- Limão, açúcar, água... Coloca no copo, mexe... Faz?

POROROCA:
- Suco de limão.

PIMPOLHO:
- Não.

TRAMPOLIM:
- Não.

POROROCA:
- Olha só... - Limão, açúcar, água... Coloca no copo, mexe... Faz?

PIMPOLHO:
- Limonada!

POROROCA:
- Perdeu. Limão, açúcar, água... Coloca no copo, mexe... Faz?

TRAMPOLIM:
- Deixa comigo... Agora ele cai. Pororoca vamos apostar tudo que você ganhou.

POROROCA:
- Tem certeza disso?

TRAMPOLIM:
- Tenho.

POROROCA:
- Então manda.

TRAMPOLIM:
- Cavalo na pista faz o que?

POROROCA:
- Essa é fácil. Corre.

TRAMPOLIM:
- O peixe no rio?

POROROCA:
- Respira.

PIMPOLHO:
- Esse não cai de jeito algum.

TRAMPOLIM:
- É que veremos. Cavalo na pista o que faz?

POROROCA:
- Corre.

TRAMPOLIM:
- Não.

POROROCA:
- Não o que?

PIMPOLHO:
- Resposta errada.

POROROCA:
- Claro que não.

PIMPOLHO:
- A resposta certa é cavalgada.

POROROCA:
- Acabou de perder.

PIMPOLHO:
- Eu não disse nada.

POROROCA:
- É isso ai. Bye! (Sai)
TRAMPOLIM:
- Que filho de uma boa... palhaça! (Saem)

FIM!

ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE...

   ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE...               de Marcondys França PERSONAGENS: CANDIDA MATILDE: Irmã de Cândida. ISABEL: Filha de Cândida. M...